O SEU AMOR, AME-O E DEIXE-O livre para amar, ir aonde quiser, brincar, correr, cansar, dormir em paz, ser o que ele é.

O Quarto em desordem
(Carlos Drummond de Andrade)
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.
Mesmo no silêncio e com o silêncio, dialogamos. Assim é nosso amor; assim desse jeitinho meu e teu, por amar e ser o próprio amor em nós e em nossos nós. Se nada substitui a segurança das palavras, falemos. É que não sabemos, ainda, de que é feito tanto amor; mas que tanto amor não é tonto. Sempre acaba em corpo, sim; fazemos amor, forma de expressão. Nosso amor é uma arte; por sobre os corpos estão as almas, e as tocamos; mas se nada substitui a segurança das palavras, falemos.
TEXTO QUASE INFANTIL
Somos dois
cada-uns que sentem um
amor-criança,
sem padrões e patrões etimológicos
um certeiro amor que dança
aqui e aí, dentro,
de um jeito que não há rejeito.
Dança,
meu amor!
Dança, aqui e aí...
cada um sua canção,
juntas almas crianças.
Ainda não sabemos
ô amor; se és palavra,
me grite! Sem olvidos
que não te amo só
quando me amas
e não me ames só
assim, escrito
e oficial.
Amor-criança é marginal
e me faz chorar só pela beleza
de minhas próprias lágrimas
encantadas
de sua leveza, criança,
e teu passo de dança.
E nada detém a força
da lágrima
da criança.
Deixe estar
como é já que é
o que somos.