Universidade Invisível
quinta-feira, abril 27, 2006
  Morte boa é morte vivida; morte só se vive uma vez na vida.




Uma catástrofe. Talvez minha mente tenha se desconectado do meu corpo, sem aviso.

Eu vi!

Passei do outro lado da minha rua, da minha vida! Passei por todos os copos que me convenciam, pelos corpos com os quais me opunha, por milagres que cometia. Não me encontrava; passava por mim, não me encontrava... e eu que queria uma morte vivida; morte que só se vive uma vez na vida; e eu, nenhuma? Queria sentir minha vida sumindo, como a senti subindo, descendo, sorrindo e sofrendo, viver a morte, experimetar seu veneno doce ou amargo, veneno ou antídoto, mas experimentá-la.

Busquei-me em todas as partes que podia, eu já não existia, ou minha mente partia. Existia? Eu me via... não me encontrava, quera uma morte digna da vida, vivida.

No palco! No mundo! Sentir as pernas bambas como se não fora eu o meu personagem. Erros e acertos, ali estava minha mente, na frente das cortinas fechadas. Meu corpo, atrás. Agora fui olhos, desprezos de tudo. Eu me despadacei, os fechei, e fui-me em busca de meu corpo a fim de viver a morte, e ,por fim...

 
quarta-feira, abril 19, 2006
  "Embora tudo oprima meu peito, meu coração bate na estrela mais distante !"
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Mais uma anotação encontrada de um estudante da
Universidade Invisível.
As 5 primeiras linhas foram um pouco difíceis, depois, uma maravilha. Sofreu influências, e muito mais que isso, de Moraes Moreira, Picasso, Cruzeiro Seixas, José Saramago, Joseph Brodski, Paulo Freire e Homem da Montanha.
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Por si só, a realidade não vale nada. É a percepção que dá sentido à ela. Existe uma hierarquia entre as percepções e os sentidos. As mais refinadas e sensíveis figuram no topo. Refinamento e sensibilidade se originam na única fonte possível: a cultura, cujo instrumento principal é a linguagem. A avaliação da realidade feita através de um prisma como este – a cultura – é, portanto, a mais precisa; provavelmente, a mais justa. Mas a cultura da vez é o egocentrismo. Mais um dia, mais alguns atos, e a descrença no humano insiste em me despertar. Meu cotidiano metropolitano contribui, talvez por corroer minha paciência, talvez pelo caos que nos invade. Como resistir? E como não? Se esse mundo é irreal por não ter humanidade devo trazer essa humanidade pra cada ação que realizo. "Pequenas" e "grandes"... e não importa se trabalhando em um supermercado, numa sala de aula, no metrô/ônibus. Minhas forças estão no significado que dou às coisas que faço; e isso ninguém me tira ou pode invadir. Embora tudo oprima meu peito, meu coração bate na estrela mais distante. Se tiram a realidade, devolvo pelas mesmas brechas.
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A esperança me move sim, mas não muda minha realidade. Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. O que seria de nós sem as coisas que não existem? Caminho suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise de tê-la. Esperança em quê? Em remédios que curem? Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E um atropelando outros na saída de uma porta que abre? E a nova hipocrisia? E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina? E a África? E a América Latina? E todas essas universidades e tantos analfabetos? Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém. O amor me move na vida, inverte a lógica cotidiana de uma grande metrópole desumana. Compartilhar, não competir. Porque não perder para essa lógica? Perco sim com qualquer um que competir. Melhor perder uma disputa que assinar nosso atestado de óbito; meu e teu, nosso. Isso não é o que rege o mundo, por isso, muito amor... isso não é o que rege o mundo nas vidas e consciências, mas a verdade é maior que a vida: e o individualismo mata todo o mundo, inclusive o individualista. Não é humano, nem pra minha vida, nem pra tua! E o amor é dessas coisas que não existem, é preciso fazê-lo existir. A esperança nem chega a ser gerada, é realizada: o amor dá conta de todo meu ser, inteiro. Caminhante, não há caminho... mas há pernas!
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Às vezes canso e me deixo levar pela desumanidade; percebo, e quero sumir da metrópole, mergulhar na casinha de campo introspectiva e prezar o silêncio: eu não páro, nunca... não há sentido em render minha humanidade e doá-la a sei lá quem seja. Eu sou amor da cabeça aos pés e assim caminho, mesmo fadado ao fracasso. Busco manter minha essência acesa, e minha essência é esse amor.
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O desbarato mais absurdo não é o dos bens de consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miudezas se tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força, para que a força esmague a fraqueza.
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Sempre tenho um pouco de receio dos "grandes mestres" da "arte" ou de qualquer coisa... mas no fundo são todos pequenos-grandes homens. Acredito até que os pequenos é que são os verdadeiros poetas, aqueles que percebem que suas vidas são obras, e suas.
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Hoje na Universidade Invisível vimos que uma obra de arte deve levar um homem a reagir, sentir sua força, começar a criar também, mesmo que só na imaginação. Ele tem de ser agarrado pelo pescoço e sacudido; é preciso torná-lo consciente do mundo em que vive, e, para isso, primeiro ele precisa ser arrancado deste mundo. Nossas camisas são cortinas, senhoras e senhores, ali atrás começa o espetáculo da verdade e do re-conhecimento, que carrega a re-construção. Abra teu peito, o meu e o deles; ali há sempre a verdade. Ela é maior que a vida, acreditemos ou não. Doloroso, isso? Eu diria libertário...
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xx/xx/2xxx.
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Xxxxxx, da UnIn. "
 
segunda-feira, abril 17, 2006
  O SEU AMOR, AME-O E DEIXE-O livre para amar, ir aonde quiser, brincar, correr, cansar, dormir em paz, ser o que ele é.



O Quarto em desordem
(Carlos Drummond de Andrade)

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

Mesmo no silêncio e com o silêncio, dialogamos. Assim é nosso amor; assim desse jeitinho meu e teu, por amar e ser o próprio amor em nós e em nossos nós. Se nada substitui a segurança das palavras, falemos. É que não sabemos, ainda, de que é feito tanto amor; mas que tanto amor não é tonto. Sempre acaba em corpo, sim; fazemos amor, forma de expressão. Nosso amor é uma arte; por sobre os corpos estão as almas, e as tocamos; mas se nada substitui a segurança das palavras, falemos.
TEXTO QUASE INFANTIL

Somos dois
cada-uns que sentem um
amor-criança,

sem padrões e patrões etimológicos
um certeiro amor que dança
aqui e aí, dentro,
de um jeito que não há rejeito.

Dança,
meu amor!
Dança, aqui e aí...
cada um sua canção,
juntas almas crianças.

Ainda não sabemos
ô amor; se és palavra,
me grite! Sem olvidos
que não te amo só
quando me amas
e não me ames só
assim, escrito

e oficial.
Amor-criança é marginal
e me faz chorar só pela beleza
de minhas próprias lágrimas
encantadas
de sua leveza, criança,
e teu passo de dança.

E nada detém a força
da lágrima
da criança.
Deixe estar
como é já que é
o que somos.


 
quinta-feira, abril 13, 2006
  Sós: as mães, os meninos, as crianças, os homens e os loucos. Só os palhaços...


Só as mães são felizes,
na cegueira que prezam;
Só meninos não choram,
pelo falo que trazem;
Só crianças peladas,
pela inconsciência que nascem;
Só os homens são homens,
pela força que fazem;

Só os loucos são sós.
Só no mundo criado,
dito realidade.

Ridículos;
Só palhaços são livres,
no descaso que vivem.

_______________________________________
Palhaço
(anônimo italiano)
Quando eu era jovem, eu pensava que com a arte seria possível mudar o mundo. Eu buscava constantemente um espetáculo que pudesse despertar no coraçăo do público uma esperança. Eu queria mostrar uma maneira diferente de viver, com mais amizade, criatividade, sem a obrigaçăo de perseguir o dinheiro e o poder. Ilusăo fútil que eu nunca consegui alcançar. Năo só a revoluçăo năo chegou, como as pessoas se tornaram cada vez mais loucas e materialistas. Quando eu me dei conta disto eu vivi momentos difíceis pensando; pensando inclusive que minha vida era um fracasso e que todo esforço era inútil.
Mas um dia eu tive uma revelaçăo: se năo se pode mudar o mundo, pelo menos é possível mudar a si mesmo, encontrar algo em seu coraçăo, um desejo, uma necessidade e entregar-se totalmente a ele, sem olhar para trás. Isso năo é para a sociedade ou para os outros, năo, é para vocę mesmo.
E eu fazendo esse palhaço que eu sou, eu encontrei essa coisa. Provocar, burlar e fazer o público rir. Isso era tudo o que eu buscava em minha vida. Por certo eu năo mudava o mundo, mas os palhaços nunca mudaram o mundo, passam o tempo tentando sem nunca conseguir, por isso săo palhaços.
Os palhaços gostam do fracasso e das açőes ineficazes, săo perdedores alegres e isto é a verdadeira força que tęm, nunca se cansam de perder. Desfrutam de cada fracasso e voltam em seguida a fracassar de novo, diluindo assim as certezas das pessoas sérias e que nunca duvidam.
Entăo, esse sangue que pareço ter na minha cabeça, esse sangue que tenho sobre a minha camisa, esse sangue que tenho no meu coraçăo, esse sangue que está todo em mim é tăo patético e inútil em seu simbolismo porque é sangue de um palhaço. Um sangue que năo vem de uma grande luta ou em nome de uma causa heróica. É sangue de brincadeira, ao mesmo tempo verdadeiro e pouco importante.

Só palhaços são livres,
no descaso que vivem.
 
sexta-feira, abril 07, 2006
  As almas levitam por sobre os corpos. Toque-as, ou troque-as.


ESPEREMOS
(Pablo Neruda - Últimos Poemas)

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

Atrás da hipocrisia, do orgulho, há o humano. E este ainda é mais do que parece ser; pode controlar as palavras, mas não as paixões. Insiste em contrariar sua natureza, exercer o concreto à leveza; permite.
Por sobre os corpos estão as almas.
Toque-as, ou troque-as.
 
quinta-feira, abril 06, 2006
  Mulher, vou dizer quanto eu te amo
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Mulher, vou dizer quanto eu te amo
cantando a flor que nós plantamos.
Que veio a tempo,
nesse tempo que carece
dum carinho, duma prece
dum sorriso, dum encanto.

Mulher, imagina o nosso espanto
ao ver a flor
que cresceu tanto.
Pois no silêncio, mentiroso,
tão zeloso dos enganos;
há de ser pura.
Como o grito mais profano,
como a graça do perdão.
E que ela faça vir o dia
dia a dia mais feliz;
e seja da alegria
sempre uma aprendiz.
Eu te repito
este meu canto de louvor
ao fruto mais bendito
desse nosso amor.



Ó pedaço de mim,
Ó metade amputada de mim,
Leva o vulto teu,
Que a saudade dói machucada.




enfim,
à tentação das nossas bocas
cruas,
e mergulhamos no poço escuro
de nós.
(TRECHOS DE CHICO BUARQUE)


Era um tal de podar-me, à prova de nada. D´umas almas que não sabiam da graça; que guardavam a feminilidade onde não cabia, e não sabiam que guardavam. Até que um santo, mudo, me grita: "essa não é disso!". É um tal de sentir, de chorar e sorrir, de querer sofrer de amores, de amar até explodir, de, a cada beijo, querer expandir-me, de, pelo desejo, deixar-me invadir, por ela. Venha ver, venha ver, Eugênia, que bonito ficou! Venha ver, Eugênia, o jardim que plantastes em mim! Brotastes feito rosa, e mais: formosa, mesmo eu sendo inóspito demais. Pra minha vida, bastava a simples alegria de uma fosca margarida. Que seja fosca, fraca, mas és flor! E mesmo que fosses fosca, mesmo que fraca... és flor, e brilha. Que bela! Que linda! Onde está tanta beleza? Onde está, que em mim não cabe? Com que regas essa flor? Já chega de tanto, que eu te quero tanto; só mesmo me ajuda o canto, que não posso mais te dizer o quanto. Que o tempo não alivia, que o tempo não se dá conta de como podes regar.
 
segunda-feira, abril 03, 2006
  Sobre a Saudade, sua Lealdade e Sublimação...

É a dor da alegria.
Um não-lugar instalado
em teu peito;
que infla, explode,
não rompe, corrói.

Um tumor benigno
de um vírus parasita
que invade pós-euforia:
Foi muita alegria, muita magia;
Vivestes demais a vida, menina.
Vida como devia ser,
e agora, abandonas
como ela é.

Não,
não chores...
Saudade é lealdade
a si.
Uma dor
de parto
ou aborto?
Uma dor de alegria,
viveste demais a vida,
menina.
Esse amor que mata
quem ama
sempre morre
de saudade
ou de amores.


Saudades antecipadas!? Efeito placebo da saudade... saudade é um parasita; que se utiliza de uma coisa pequena de um grande momento para se infiltrar no nosso peito, pequenininha, sem precebermos. Por exemplo aquele carro cruzando a Paulista com uma listra amarela exatamente igual à cor do prédio da tua avó; um cheiro de um 'x' que passa trazendo à lembrança o perfume dela/e; a tampa da privada que busca no fundo da cabeça o vestido longo e estranho da nerd da FFLCH. Saudade se esconde em qualquer coisa singela. Traz com a listra amarela a liberdade do momento na casa dela; saudade, nostalgia da alegria. Porque dói?! Aí ecoa, lá dentro! Se instala, cresce, agiganta-se. Mas veja o lado bom, a ironia, que poesia; saudade é um sentimento muito leal... primeiro porque não aparece em qualquer beldade: só sente saudade quem sentiu a vida além da sua capacidade; segundo, porque matar a saudade é o maior gozo do mundo; e terceiro blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...
Dime por favor cual es la noche
En que no vendrás para velar mis sueños...
Que no puedo vivir porque te extraño
y no puedo morir porque te quiero.
(Jorge Luis Borges)
As saudades me consomem, por amar e querer bem.
 
De um lado o concreto, de outro, a imaginação livre. Mas veja: aqui não há esperanças; subimos em árvores e montanhas de fato; há simplesmente uma casa muito engraçada, não tem teto, nem nada; Nada, na tal casa, possui o teor da verdade; apenas um teor suficiente para perceber que aqui há um diálogo e não um discurso.

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